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Quinta, 30 de novembro de 2017, 10h59

Crítica de cinema

Assassinato no Expresso Oriente

Observatório do Cinema


Agatha Christie é uma das autoras que mais venderam ao longo de sua prolífica carreira, algo que gera lucros até hoje. Por ser um nome tão difundido nos meios literários, talvez exista um receio em adaptar a dama do crime para os cinemas. Todavia toda obra audiovisual de mistério que segue as bases do “whodonit” (a famosa estratégia do “quem matou?”) baseia-se nas famosas narrativa de Agatha Christie, sendo uma peça fundamental para a cultura narrativa ocidental como um todo.

Assassinato no Expresso Oriente é uma de suas obras mais conhecidas, gerando não só esse filme de 2017, mas também uma clássica versão da década de 1970 com um grande elenco comandado por Sidney Lumet. Talvez uma das adaptações de Agatha Christie mais bem sucedidas, um filme que se apoiava na curiosidade de um mistério extraordinário com um toque de humor negro irônico, um longa divertido e bastante interessante. Essas são informações necessárias para entender como a versão atual busca uma certa identidade própria, algo que por si só chama atenção, sendo um longa nada acuado diante do trabalho de adaptar um grande sucesso literário atemporal que já teve um filme de sucesso realizado.

Muito disso se deve ao fato de Kenneth Branagh estar em evidência nessa nova versão, sendo tanto o diretor do longa como seu protagonista, dando vida ao famoso detetive Hercule Poirot. Se antes, na versão de 1974, e até mesmo no livro, o suspense e a perspicácia do mistério era o grande foco narrativo, sempre de maneira leve, aqui há um interesse na construção de um drama a partir daquele assassinato, fazendo uma investigação moral daquele ocorrido e de seus envolvidos. Algo que é transmitido para o público na visão do próprio detetive, aqui o grande centro do filme e não apenas um personagem infalível que está ali para desvendar um mistério desafiador. Assassinato no Expresso Oriente dá uma importância imensa a emoção e as sensações daquele detetive diante daquele caso, algo que enriquece totalmente o filme.

Isso justifica uma série de ideias presentes no filme e no roteiro escrito por Michael Green (Logan e Blade Runner 2049). Por exemplo, o fato do longa dar tanta importância para o que ocorre com Poirot antes de entrar no Expresso Oriente, desvendando um caso no Oriente Médio entre um Rabino, um Padre e um Imam, um momento que demora longos minutos, mas constrói toda a figura do detetive, suas manias – como uma eterna busca por equilíbrio – e suas convicções, o senso que existe sempre o certo e o errado, e ele está ali para ajudar a distinguir esses dois polos, algo que vai sendo desmoronado durante o caso dentro daquele fatídico trem.

Isso mostra como os realizadores são capazes até mesmo de comprometer o ritmo do filme, a fim de se manterem fiéis a suas ideias, algo que pode fazer a experiência ser um tanto quanto truncada, que demora para atrair de vez o espectador, mas faz de tudo para construir solidamente suas ideias. E todas essas ideias dizem muito a respeito do próprio Branagh, um cineasta e ator que vem do teatro demonstrando assim sua predileção pelo trabalho do ator, pela investigação dramática e pela utilização dos diálogos.

Essa tradição provinda da arte cênica por excelência é a principal conexão com o trabalho de Lumet, cineasta americano com as mesmas origens. Assim é interessante como os espaços restritos de um simples trem são utilizados para colocar sempre em disputa o detetive e algum outro personagem. Cada ambiente é transformado por Branagh em um grande palco, onde os atores tem a possibilidade de mostrar seu envolvimento com o projeto. Talvez seja por isso que nenhum membro do estrelado elenco esteja fora do tom, contidos na mesma medida que prontos para construírem personas interessantes e complexas, sempre em jogos dissimulados que devem ser desvendadas pelo protagonista. Essa dinâmica faz com que as atuações sempre cresçam na projeção destacando principalmente Leslie Odom Jr., Daisy Ridley e Michelle Pfeiffer e também Branagh. O ator da escola Shakesperiana constrói sequências inteiras para demonstrar sua eloquência, seus virtuosismos e sua habilidade, esse homem racional dentro de um quebra-cabeça curioso e moral.

Os holofotes em si mesmo ajudam o longa a construir esse retrato mais profundo do detetive, o desenvolvimento dramático da situação se assegura sem perder o espectador, conseguindo dosar sua excitação, marcada pelo mistério do assassinato dentro do expresso oriente que todos são suspeitos cometido, e suas questões éticas, colocadas nos monólogos do protagonista sobre o porquê alguém aparentemente comum poderia ter realizado aquilo. Essa adaptação dramática já funcionou com Branagh uma vez no ótimo Frankenstein de Mary Shelley e funciona mais uma vez em Assassinato no Expresso Oriente com uma montagem dinâmica, um dinamismo no segundo e terceiro ato, algo que marca o desenrolar do mistério, mesclando bem essa pretensão dramática com as necessidades rítmicas de um blockbuster do tamanho deste longa.

Assassinato no Expresso Oriente muitas vezes entende que ser uma obra para o grande público refere-se a necessariamente ter que explicar tudo para seu público, com a inserção de uma série de flashbacks, ainda que alguns sejam narrativamente necessários, outros só não precisariam estar ali, mas todos são realizados com um simples e preguiçoso preto e branco que faz com que aquilo se remeta ao passado. Como também uma enorme força para que esse ponto moral encontrado pelo protagonista seja sempre colocado de maneira verbal no filme, sendo que ele está nas entrelinhas de todos outros diálogos, ou nas ações daqueles personagens, sem essa necessidade de mastigar as suas ideias para o espectador.

Assassinato no Expresso Oriente vive também desse diálogo entre uma recente experiência de Branagh no alto do cinema industrial americano com filmes como Thor e Cinderela, mas também de seu rico repertório em filmes mais ousados como sua fiel reprodução cinematográfica das peças de Shakespeare. Para o bem e para o mal isso marca uma relação entre um filme repleto de ideias pessoais com uma pretensão de atrair o público. Se isso poderia causar algum ruído no longa, o cineasta amarra tudo com um academicismo clássico, deixando a narrativa em primeiro lugar a cada plano, fazendo com que suas imagens estejam a favor da história, mas também realizando um filme virtuoso imageticamente. Esse suntuoso trabalho estética chama atenção para a narrativa de mistério, por exemplo, na reprodução da Santa Ceia, onde todos os suspeitos estão sentados ao entorno da figura principal da trama de mistério; ou num interrogatório em que o acusado, que acaba de ter seu disfarce despido, é enquadrado através de vários espelhos, demonstrando essas camadas daquele personagem específico. O filme, então, consegue criar artifícios para dominar sua narrativa, sintetizar suas ideias e cooptar seu público.

Assassinato no Expresso Oriente é marcado por esse blockbuster que consegue unir uma série de qualidades, sendo um projeto carregado com uma mão quase autoral, sem esquecer-se de uma devoção ao público e a sua narrativa já consagrada, algo que nos remete a um sentimento visto lá no cinema clássico americano, como até remete o quadro final de Hercule Poirot caminhando rumo a um sol se pondo após seu trabalho ser realizado. Kenneth Branagh realiza então um filme que em busca de sua própria identidade não só agrada como faz jus a todo cânone em torno de Agatha Christie e sua famosa obra.

 



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