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Segunda, 19 de junho de 2017, 00h00

Tempos líquidos na política mundial

Daniel Almeida de Macedo


Com a vitória nas eleições legislativas o presidente francês Emmanuel Macron e seu partido centrista A República em Marcha, criado há menos de um ano, ganham extraordinária força para ampliar as reformas socioeconômicas propostas em campanha e revigorar a relação entre os países da União Europeia. Há alguns meses, no entanto, esse resultado seria inconcebível na França. Poucos consideravam possível a vitória do banqueiro de 39 anos, Emmanuel Macron, nas eleições presidenciais do país. Vislumbrar uma vitória acachapante de Macron nas eleições do Parlamento francês seria uma realidade ainda menos provável para os analistas da dinâmica política na França. Isto porque já no início de 2016 havia uma percepção bastante disseminada de que o mundo estava ingressando em uma era de sentimentos nacionalistas e conservadores. Um primeiro sinal que indicava a mudança de paradigma foi a saída do Reino Unido da União Europeia, após os resultados do plebiscito realizado em 23 de junho de 2016, conhecido como Brexit. Alguns meses depois, em 9 de novembro, a vitória do republicano Donald Trump nas eleições norte-americanas transmitia a imagem definitiva do ressurgimento dos valores e tradições conservadoras, inclusive no campo da disputa macroeconômica pelo destino do capitalismo praticado no Ocidente.

Em 2017, no entanto, alguns eventos começaram a enfraquecer a tese do fortalecimento do neoconservadorismo mundial. Em março na Holanda, o candidato de ultradireita Geert Wilders não prevaleceu nas eleições presidenciais. Em maio, Marine Le Pen líder do partido de extrema-direita francês Frente Nacional foi superada nas urnas pelo atual presidente francês eleito. Enfim, a assustadora onda populista que se propagou pelo Ocidente no início de 2016 perdeu força e agora apresenta indícios de que parece refluir. A eleição presidencial de Emmanuel Macron e os surpreendentes resultados das eleições parlamentares realizadas ontem na França parecem confirmar esse movimento gradual de convergência ao centro do espectro político.

Ao lado da notável vitória de Macron da Assembleia Nacional da França, outro evento de grande importância parece reforçar a ideia de que o populismo de direita, como estratégia política, talvez não provoque o mesmo efeito convincente de outrora. No início desse mês de junho, quinta-feira dia 08, o Partido Conservador perdeu a maioria absoluta no Parlamento do Reino Unido. Isto ocorreu após a primeira-ministra britânica Theresa May convocar antecipadamente eleições parlamentares gerais. May avaliou que sairia fortalecida após as eleições que a confirmassem no cargo, e assim ganharia mais legitimidade para discutir os termos da saída do Reino Unido da União Europeia. A ameaça terrorista muito presente no Reino Unido atualmente, a crise dos partidos tradicionais na política europeia e a própria eleição de Trump no Estados Unidos foram interpretados por May e seus assessores como fatores que dariam sustentação às suas posições políticas e reafirmariam o Partido Conservador do qual faz parte como solução adequada para os desafios do Reino Unido. O resultado efetivo dessa avaliação foi catastrófico. Contrariando as análises, a presumida vitória esmagadora sobre os rivais políticos do Partido Trabalhista, que poderia assegurar uma bancada forte para apoiar as posições e ambições de Theresa May nas negociações do Brexit, não aconteceu. Com a antecipação das eleições os conservadores britânicos conseguiram reduzir ainda mais o seu apoio no Parlamento Britânico de Westminster, comprometendo drasticamente as chances de êxito na execução de seus planos de governo, especialmente referentes à forma de saída do Reino Unido da União Europeia.

É intrigante notar a velocidade dos movimentos políticos da atualidade. Em pouco mais de um ano o mundo pareceu oscilar entre momentos de disposição política "evidentemente conservadora" para ciclos de "maior moderação". Essa realidade instável do cenário político mundial remete precisamente ao que Zygmud Bauman descreve como tempos líquidos, onde tudo muda de forma muito rapidamente e nada é feito para durar.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP



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