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Terça, 13 de março de 2018, 00h00

Notícias falsas na democracia

Antonio S. Silva


Nos últimos anos uma tormenta de debates sobre as notícias falsas nas redes sociais, a chamadas fake news, que surgiram nas eleições dos Estados Unidos em 2016, chegou ao resto do mundo, como uma realidade contemporânea. No Brasil, diante das disputas eleitorais que se aproximam, o assunto ganhou notoriedade, ao ponto de candidatos fazerem grandes investimentos em mídias digitais como estratégia de convencimento do público e desfazer as chamadas mentiras publicadas nas redes sociais. Cada vez mais comum, medir a capacidade de um candidato por sua capilaridade na internet, obtendo mais apoio para seus argumentos ou ideologia.

Afinal, como analisar a fake news, considerando a amplitude das redes de computadores, com cada pessoa querendo construir suas ideias e posições? Talvez possa até mesmo compreender notícias falsas como mentiras publicadas, de modo estratégico para esvaziar (ou atacar) argumentos dos adversários. Uma questão que não se mostra uma novidade, nem pertencendo à modernidade. A questão, então que surge é compreender a definição de verdade propagada à opinião pública.

Ponto também controverso é a definição de argumentos consensuais, portanto, verdadeiros. No final, a comunicação nunca foi um lugar simples de observação. Em alguma circunstância pode existir apenas como afirmações para desconstruir o novo para a manutenção de posicionamentos políticos conservadores.

A disputa entre o jornalismo tradicional e as redes sociais vai se mostrando inócua, como um ponto de observação.

Se algum tempo, não muito distante, foi possível seguir apenas alguns veículos de comunicação, capazes de revelar os acontecimentos e tomar posição sobre a realidade dos fatos, hoje os emissores se multiplicaram. Portanto, não se trata de alguns falando para muitos, mas de muitos falando para muitos. A verdade se revela mais complexa, portanto, em razão de um universo com muitas posições e informações equivocadas ou não, conforme o ângulo observado, até mesmo ante as diferenças culturais.

Pensando no jornalismo, quase consensual a defesa da chamada objetividade, ou seja, a descrição do fato em si, a exemplo de uma fotografia, retratando fielmente o objeto da imagem, cabendo ao público decidir, ao final, sua posição. Diferentemente disso, convivemos, diante de um amplo debate com uma sociedade que mais valoriza a subjetividade, pois é esta que está em disputa, não mais somente a objetividade jornalística, todavia substancialmente importante, mas não o suficiente para a formação de conhecimento.

Neste sentido, os meios de comunicação ganham importância ao permitir que haja na sociedade conhecimento mais profundo nas diversas opiniões do meio em que se vive, sobretudo no campo político, de modo a evitar aquilo que se revela falso, comprometendo a ordem social, como sinônimo de qualidade de vida, democracia e igualdade.

Afinal, possível dizer que as disputas por argumentos nunca deixarão de existir. Hoje tem a ajuda de robôs que sistematizam a divulgação das fake news, que certamente foram idealizadas por profissionais competentes, com a finalidade antissocial de atingir objetivos e ideologias. Ao longo da história humana poderiam ser chamadas de mentiras, ficção, manipulação, que incluem até livros de história, literatura, enfim.

Contudo, a expansão do processo comunicativo parece causar pavor, considerando a multiplicidade de vozes, na definição de verdades para realidade em conflito. Uma eleição não se define pelas falsas notícias, sem passar pelo crivo do consenso social, dos formadores de opinião. A censura simplesmente, por outro lado, ainda que dita bem-intencionada pode levar a hegemonia de ideias e não pluralidade de pontos de vista.

Antonio Sebastião da Silva é doutor pela Universidade de Brasília (UnB), mestre pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e professor pela Universidade de Mato Grosso (UFMT).



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