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Segunda, 16 de abril de 2018, 00h00

A Rússia e o mundo

Daniel Almeida de Macedo


No final do mês de março o Ocidente deu um claro sinal de que já não irá mais tolerar a política de medo tradicionalmente imposta pelo Kremlin. Até a edição desse artigo, além do Reino Unido, 20 países incluindo Estados Unidos e a Otan, anunciaram a expulsão de mais de 150 diplomatas russos de embaixadas e organismos internacionais.

O pivô do caso é um ex-agente do serviço de inteligência russo, Sergei Skripal, condenado à prisão em 2006 na Rússia por traição. A acusação é que ele vendia informações sigilosas para o Reino Unido. Quatro anos depois do julgamento ele recebeu perdão presidencial e passou a morar no Reino Unido. Em 4 de março de 2018 ele e sua filha Yulia Skripal foram envenenados em solo britânico com um agente neurotóxico raro. Ambos seguem hospitalizados em estado grave.

Embora esse seja o enredo do caso, há diversos outros elementos que tornam a situação realmente grave. O veneno utilizado nesse atentado, segundo o jornal britânico The Guardian, é o mortífero Novichok, um agente nervoso produzido apenas na Rússia. Trata-se, na verdade, de uma arma química de destruição em massa absolutamente proscrita pela lei internacional. Ou seja, para empregar o Novichok, mesmo em quantidade ínfima, foi necessário transportá-lo para território britânico. Essa ousada operação do governo de Putin, até então inimaginável, transmitiu ao governo britânico o claro recado de que a Rússia tem capacidade e disposição para utilizar a arma química numa dimensão muito maior.

Mas há, ainda, outros elementos ainda mais intrigantes a serem considerados nesse tabuleiro. Como estratégia geopolítica, o presidente russo parece manter a Europa e o mundo ocidental divididos e sob tensão. São conhecidas as denúncias de interferência externa e as tentativas de manipulação da opinião pública pelos russos em várias eleições, da Catalunha à Itália, passando pelo Brexit e pelas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Em alguns episódios a Rússia é acusada, inclusive, de usar as redes sociais para difamar por meio de fake news candidatos que não representam seus interesses. Em outros casos, o governo russo é suspeito de financiar partidos e cooptar seus integrantes para influenciar os resultados de eleições. Já na guerra na Síria o envolvimento russo tem sido, desde o início, pela manutenção do governo sanguinário de Bashar Al Assad e em oposição à coalisão internacional que luta pela sua deposição. Em todos esses casos é possível identificar um padrão de atuação da Rússia, frequentemente agindo com o objetivo de desestabilizar qualquer iniciativa de união entre os países do Ocidente.

O caso do envenenamento em solo britânico, no entanto, parece ter ultrapassado um limite simbólico, fazendo emergir um sentimento de defesa nacional muito poderoso entre os europeus. Sobre o episódio, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros Frank-Walter Steinmeier afirmou em tom grave e solene que "pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, uma arma química foi usada na Europa". Pelas amplas e profundas repercussões que geraram o atentado do governo russo em solo britânico, é presumível que o caso inaugure um novo momento diplomático, marcado pela desconfiança e polarização dos países em relação à Rússia. Ainda que as consequências desse evento ainda não sejam plenamente conhecidas, é evidente que a expulsão em massa de diplomatas russos de países ocidentais não poderia acontecer em um momento mais inadequado. É certamente um fato preocupante que causa grande constrangimento e estremece as relações internacionais, especialmente com a proximidade da Copa do Mundo FIFA de Futebol 2018, que reunirá na própria Rússia representantes de países de todo o mundo.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP e escreve neste espaço às segundas-feiras



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