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Quinta, 11 de janeiro de 2018, 10h30

Crítica de cinema

O Touro Ferdinando

Observatório do Cinema


O Touro Ferdinando começa a figurar nas listas de premiação entre as melhores animações, algo que coloca o nome do brasileiro Carlos Saldanha em destaque como diretor desse longa. O Touro Ferdinando baseia-se numa história publicada no início do século passado, adaptada ainda na década de 1930 num curta-metragem da Disney e agora volta aos cinemas, algo que diz muito sobre este filme, no sentido de resgatar um tom que se via nas primeiras animações, assim como nas antigas narrativas infantis.

Pode-se dizer, como um elogio, que O Touro Ferdinando é um dos filmes mais despretensiosos das grandes animações atuais. Esse é justamente seu ponto mais forte e sua característica mais particular. Isso significa que o longa, contrariando aquilo que se busca na indústria, não tende a criar incríveis narrativas, nem grandes aparatos visuais, muito menos uma complexa mensagem – inovadora e buscando profundidade, três estratégias que bem realizadas poderiam criar uma obra-prima. Todavia, se colocadas de forma atabalhoada, sem a devida construção, não entendendo realmente o que podem fazer, ou como não transformar isso num padrão um tanto quanto forçado, esses filmes acabam virando obras apenas pretensiosas, que tentam fazer da animação algo muito mais carregado, que muitas vezes gera certa superficialidade desnecessária.

O Touro Ferdinando faz a operação inversa, visando uma relação da inocência entre seu material, a animação em si, e o público, algo que gera um sentimento no mínimo terno e inocente. E a história em questão sempre tratou de inocência, o longa acompanha o personagem título, um touro que desde sua infância não deseja ter o comportamento combativo típico daquele animal, e muito menos possuía o sonho de um dia entrar numa arena de tourada. Ao notar o verdadeiro futuro daqueles animais ele decide fugir, sendo acolhido por uma família que praticamente adota Ferdinando e ele pode se dedicar ao que mais gosta, as suas flores. No entanto, o personagem descobre também que depois de adulto sempre será visto como uma besta, um touro que bota medo nos outros e mais uma vez precisa provar que é mais do que um simples animal para combate.

É bem verdade que há nessa narrativa uma mensagem a ser transmitida: esse tom pacifista que sempre teve no conto (lançado às vésperas da Guerra Civil Espanhola); ou essa conscientização em relação ao bem-estar animal, algo extremamente em voga nesse olhar atual sobre um animal que não quer lutar, algo que por opção acredita-se que nenhum touro participaria de uma tourada. Todavia, Touro Ferdinando não soa moralista ou forçado, justamente por optar pela diversão e através de sua simplicidade e comicidade que consegue transmitir suas ideias, sem que isso surja como se fosse algo inteligente, mas também distante da superficialidade.

Assim, o longa comandado por Saldanha remete aos desenhos clássicos. O Touro Ferdinando é uma animação de comédia, assim como era lá no passado, ainda que existam as subtramas dramáticas e uma mensagem a ser transmitida, o que faz o longa caminhar é seu desenvolvimento cômico de fato. Assim, há uma série de momentos, onde o filme se constrói em torno de gags puramente visuais, que não dependem do diálogo e da fala para poder divertir. Dessa maneira, há sempre um jogo de cena, um truque de câmera (possibilitado pela animação) que faz com que a piada e o riso estejam presentes e ajudam a história a ser contada.

Por mais simples que isso possa parecer, por mais inadequado frente a pretensão que atinge a onda das animações atuais (que gera bons e maus filmes), isso demonstra uma destreza ímpar em conseguir manter o espectador atento, interessado e divertindo-se com aquilo. Dessa forma, é mais do que necessário atribuir os devidos méritos a quem consegue reproduzir tão bem o simples, ou melhor, que faz o difícil parecer tão fácil. Sem utilizar de piadas escrachadas, ou se entregar a um pastelão fácil, as gags visuais lembram os clássicos animados como Tom e Jerry ou a primeira versão de O Touro Ferdinando, esses momentos são os mais divertidos do longa, como quando o protagonista com aquele tamanho tenta não quebrar nada numa apertada loja de louças. Momento sem nenhuma fala utilizando-se apenas da relação entre a decupagem do filme, o protagonista e aquele ambientem, gerando a piada para o público.

Mais interessante ainda é notar como esses momentos fazem com que o filme avance, contando a respeito dos personagens, não sendo apenas piadas que buscam desesperadamente fazer com que seu público ria. Há por exemplo, quando o touro promove uma batalha de dança com os cavalos do celeiro onde ele está aprisionado, e essa gag visual vira o motivo para que outros touros compactuem com esse protagonista tão diferente. Ou até mesmo no clímax do filme, onde a relação entre o touro e toureiro é completamente modificada durante a cena e suas diversas piadas, humanizando de vez o personagem título sem que nenhuma palavra seja dita.

Assim, pode ser realmente que O Touro Ferdinando não tenha a pretensão de outras animações, não buscando de maneira alguma complexidades técnicas, estéticas, narrativas e temáticas. Algo que faz com que o filme tenha certo limite que possa alcançar. Por outro lado, é interessante como uma animação pode abraçar sua simplicidade, resgatando um tom extremamente presente nesse tipo de filme no passado e faz com que essa inocência genuína demonstre um relevância para sua plateia, assim como no fazer cinematográfico.

 



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