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Quarta, 16 de maio de 2018, 09h30

Brasil

Ligado ao caso Marielle, Orlando da Curicica está preso por outra morte


Nascido e criado na Curicica, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, o ex-policial militar Orlando Oliveira de Araújo, de 44 anos, atualmente cumpre pena em outro endereço da zona oeste da cidade: o Complexo Penitenciário de Bangu. Na região onde morava, ficou conhecido como Orlando da Curicica, apelido que ultrapassou os limites da comunidade depois que uma testemunha o apontou como um dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL).

Mas antes de ter seu nome envolvido com a morte da vereadora, Orlando já estava na mira da subsecretaria de Inteligência da Seseg (Secretaria de Segurança do Rio), que investigou o fato de ele ser o suposto líder de uma milícia em Jacarepaguá, bairro vizinho à Curicica.

A zona oeste é considerada a fortaleza dos grupos paramilitares na capital fluminense. Quem vive na região diz temer represálias e, por isso, evita falar sobre a atuação das milícias. Um morador, que pediu para não ser identificado, explicou que, até pouco tempo atrás, os bairros da Taquara e Curicica eram controlados por três grupos, que agiam discretamente, sem tiroteios ou exibição de armas.

Apesar do clima de aparente segurança, os comerciantes que faltassem com o pagamento das taxas eram ameaçados e tinham seus estabelecimentos destruídos. Os três grupos também exploravam a venda de serviços, como gás, TV por assinatura e transporte clandestino.

Segundo a testemunha, a liderança de um deles estaria sob domínio de Orlando da Curicica. Porém, após sua prisão em outubro do ano passado, a região foi invadida por milicianos da Liga da Justiça, apontada pela Polícia Civil como a maior e mais perigosa do Estado do Rio de Janeiro.

A disputa pelo território resultou em confrontos e assassinatos à luz do dia, trazendo terror e insegurança aos moradores. Atualmente, não é raro ver suspeitos circulando em carros com fuzis expostos nas avenidas que ligam os dois bairros.

A violência experimentada pelos moradores após a saída de Orlando só fizeram aumentar sua fama na comunidade. Além de respeitado e temido, ele teria muito prestígio na área, garantiu a testemunha.

Prisão de Orlando da Curicica

Foi uma acusação de homicídio que o levou à prisão. Orlando é réu em um processo que investiga o assassinato de Wagner Rafael Souza, presidente da Escola de Samba União Parque Curicica, um crime com todas as características de execução. Ele foi morto a tiros dentro de um carro em Jacarepaguá, também na zona oeste da cidade, em 2015.

Na época, a autoria do crime foi atribuída a Orlando por um dos passageiros do veículo atacado, que conseguiu sobreviver. A motivação teria sido a instalação de um circo na área suspostamente controlada pelo ex-PM. A vítima, porém, mudou seu depoimento durante o julgamento.

A ausência de provas, no entendimento do juiz, pode acarretar na suspensão da prisão preventiva de Orlando e de outros dois homens, apontados como executores do assassinato.

"Esse processo já se encontra em alegações finais, os supostos executores já foram impronunciáveis [podem ser absolvidos] por ausência de provas, então tudo leva a crer que o Orlando deva ser impronunciável pelas mesmas razões, disse o advogado Renato Darlan, que defende Orlando há dois meses.

Antes disso, ele já havia sido alvo de outro processo judicial, que culminou em sua expulsão da Polícia Militar. Orlando não respondeu ao inquérito, se manteve foragido e depois de 20 anos o crime prescreveu.

O R7 procurou a Polícia Militar, mas a corporação não informou a razão de seu desligamento.

Depois da expulsão, Orlando da Curicica passou a trabalhar como segurança particular de eventos e foi, justamente nesse serviço, o momento em que ele teria conhecido a testemunha que o acusa de ser mandante do assassinato de Marielle Franco.

Caso Marielle

Orlando da Curicica foi ligado à morte da vereadora Marielle Franco por uma testemunha ouvida pela polícia. Ela contou que o ex-PM e um vereador, Marcello Siciliano (PHS), se encontraram algumas vezes para tratar da atuação de Marielle na zona oeste cidade, área com forte presença de milícias e de grande interesse eleitoral.

Após saber da denúncia, o ex-PM escreveu uma carta de próprio punho negando ser um dos mandantes do crime. Na mensagem, ele disse não conhecer a vereadora e ainda acusou a testemunha de integrar um grupo de milícia na zona oeste.

Preso em Bangu 1, Orlando recebeu a visita de um representante da Polícia Civil na cadeia. De acordo com o advogado Renato Darlan, um delegado tentou pressionar o cliente dele a confessar a participação na morte de Marielle.

A Secretaria de Segurança confirmou que o delegado citado esteve em Bangu 1 e se encontrou com o ex-PM, mas disse que foi a pedido do preso.

A defesa de Orlando afirmou também que ele está há dias em jejum por medo de ser envenenado na prisão.

Na última segunda-feira (14), a Justiça atendeu ao pedido do MP e determinou a transferência de Orlando Curicica para um presídio federal de segurança máxima.

O MP diz que a transferência “é de grande relevância para o interesse da segurança pública, visando inibir a atuação do preso em referência e de coibir eventuais associações criminosas, bem como quaisquer outras práticas que atentem contra o Estado e a população”.

No entanto, a defesa de Orlando afirmou, na terça-feira (15), que vai entrar com um habeas corpus na Justiça para tentar suspender a decisão, já que a transferência para outro Estado afastaria o ex-PM da família e dos advogados.  



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